Esta semana, estava conversando com um amigo de infância e cinéfilo, o qual comentava o quanto havia ficado impressionado com um filme de Buster Keaton, "A General". Neste filme, Keaton, o palhaço que nunca ri, atua como maquinista de uma locomotiva, que recebe o nome do título do filme. Em meio a Guerra da Secessão Norte-Americana, ele tem sua locomotiva seqüestrada pelo exército dos Confederados, juntamente com sua "outra" amada, Annabele. Este é o mote, para que a personagem de Keaton passe por diversas situações até conquistar seus amores. Discutindo este filme, refletimos o quão pouco é necessário para termos um bom filme. O cinema é uma arte que envolve imagem e movimento, o qual bem trabalhados podem gerar mágica em nossa imaginação. É a nossa mente que conta a história, é a nossa mente que registra cada emoção experimentada durante aquelas horas de projeção.
Assisti com muita alegria e emoção o excepciona "O Artista", do diretor francês Michel Hazanavicus. Em uma época em que valorizamos apenas o tecnológico, o moderno, o diretor retoma os princípios do cinema, ainda em sua era muda, fazendo uma grande homenagem a esta arte. De maneira minimalista, o diretor consegue mostrar com a sua narrativa de que o cinema arte pode estar aliado ao entretenimento sem perder em qualidade.
O filme procura explorar o período de transição entre o cinema mudo e cinema falado, na década de 1930. Esta temática já havia sido explorado em dois outros grandes clássicos do cinema Crepúsculo dos Deuses (1950) e Cantando na Chuva (1952). O primeiro conta a história de um morto na mansão de uma ex-grande artista do cinema mudo, e o segunda tem uma linha muito semelhante a "O Artista", pois conta justamente as dificuldades dos atores em trabalhar coma voz.
O filme "O Artista" começa a me agradar deste o início com sua abertura imitando àquelas dos filmes dos anos 30 e 40. A narrativa conta a história de um grande artista do cinema mudo George Valentim, o qual sem dúvida alguma é uma homenagem a artistas como Douglas Fairbanks e Rodolfo Valentino, e que cai no ostracismo após o início do cinema mudo. Ao mesmo, acompanhamos a ascensão de uma jovem atriz Peppy Miller, a qual o próprio Valentim ajudou no início de sua carreira.
O filme conta com seqüências espetaculares, em um preto e branco rico em tons de cinza, e uma trilha sonora espetacular. Algumas cenas ficarão eternamente registradas em minha memória:
1- A jovem atriz Peppy Miller ao entrar no camarim de seu ídolo, George Valentim, encontra seu fraque e com uma candura raramente observada nas salas de projeções faz um afago, utilizando sua própria mão e criando uma ilusão de que seu ídolo a abraça. Perfeita!
2- Talvez esta seja uma das cenas que ficarão na história. Ao perceber que o fim do cinema mudo seria inevitável, Valentim se tranca em seu camarim, e, de repente, passa a ouvir sons dos objetos ao tocá-los, o som de suas passadas, o riso das pessoas, até o som de uma pena tocando o solo. Apenas sua voz não sai. Isto gera pânico nele. Lembrou-me muito uma cena do filme Crepúsculo dos Deus, em que a personagem Norma Desmond, interpretada por Gloria Swanson, ao chegar um estúdio de gravação depara-se com microfones e isto causa terror a ela.
3- Com a ruína do cinema mudo e ascensão do cinema falado, observamos uma metafora no filme. Em uma cena George Valentim encontra-se nas escadas com a atriz em inicio de carreira Peppy Miller. O primeiro desce as escadas, a segunda sobe. Não há maneira melhor de revelar a queda de um e o início do estrelato da outra. Cena inesquecível!
4- Como última tentativa de alavancar sua carreira, George Valentim tenta realizar um filme, o qual é um fracasso em sua estréia. Na cena final, a sua personagem afunda em areia movediça. Esta foi uma maneira muito inteligente do diretor mostrar o quanto a carreira de Valentim estava afundando. Ver esta cena, com o olhar piedoso da personagem Peppy Miller é de partir o coração e acho pouco provável alguém conter as lágrimas. Eu não contive...
Este filme é uma grande homenagem ao cinema e sua magia. É um filme um cinéfilo para cinéfilos. Sem dúvida alguma, estará em breve na videoteca de muitas pessoas. Por fim, fico refletindo a razão de uma produção francesa, um diretor francês e um elenco predominantemente francês fizeram um filme mudo tipicamente norte-americano. Seria uma maneira do diretor Hazanavicius dizer que se não falamos inglês estão mudos para o resto do mundo? A cena final em que o diretor de um filme pergunta a George Valentim se ele pode repetir uma cena e ele responde com um inglês com sotaque francês (única cena falada do filme) deu-me a resposta.