domingo, 13 de novembro de 2011

A Pele que Habito - Almodovar brinca de Mary Shelley

Uma das coisas mais incriveis que Maíra tem é a capacidade de se abrir ao novo, conhecer novas ideias e pensamentos. Lembro-me de que quando começamos a namorar, há mais de dez anos, convidei-a a ir ao show de uma banda de um amigo meu na Rua Chile aqui em Natal. A noite era chuvosa, o local não muito agradável, e som das bandas daquela noite soavam muito distantes do ritmo MPB a que ela estava acostumada. Mesmo assim, ela foi e com a maior paciencia do mundo aguardou até a última banda, que era do meu amigo. Pode ter sido um gesto simples, mas já revela a sua capacidade de renunciar suas vontades em detrimento do interesse de alguém que gosta, no caso eu, que ama.

Acontece que dez anos após aquele show, faço mais uma proposta indecente a Maira. Convidei-a a assistir ao mais novo filme do polêmico Pedro Almodovar, A Pele que Habito. E mesmo conhecendo o histórico do diretor de Tudo sobre Minha Mâe, ela não recusou. E acho que desta vez acertei...

O filme foge um pouco do estilo tradicional de Almodovar, pois se trata de um suspenso com um quê "hitchcockiano". E ele acerta. O enredo conta a história de um brilhante cirurgião plástico interpretado por Antonio Banderas (em surpreendente interpretação) que desenvolve uma pele artificial e faz seus "experimentos" em um ser vivo, a bela jovem interpretada por Elena Naya. Após uma grande perda, este cirurgião busca redenção e expurgo dos seus traumas no trabalho e com isto acaba perdendo o limite da razão. Em seu trabalho é auxiliado pela governanta interpretada pela espetacular Marisa Paredes, a qual atua como sua conciência muitas vezes.

O uso de cores sempre foi muito marcante no trabalho de Almodovar, e neste as cores se tornam mais discretas, mais sombrias. Chamou-me muita atenção a escolha dos quadros que embelezam as paredes da casa, todos com muito nu, revelenado a obsessão do cientista pelo corpo, pela pele. Um destes quadros é uma livre interperetação do Nascimento de Vênus de Sandro Botticelli, em que a mesma aparece sem rosto. Seria isto um maneiro de demonstrar que hoje somos seres sem identidade obcecados apenas pelo nosso corpo?

O filme discute aspectos importantes, particularmente a ética na pesquisa e no uso dos conhecimentso adquiridos. Conseguimos preservar os limites do bom senso? Ou para obter um bom resultado devemos nos desafzer de nossos escrupulos? Aliás, ética e honestidades em nossas ações é algo que debatemos com vigor nos dias atuais. Surpreendemo-nos com aqueles que são sincereos, simples e honestos. Deixamos de acreditar nas palavras e buscamos o legalizmo exagerado.

Algo muito tocante no filme é a interpretação de Marisa Paredes, a qual descobrimos no decorrer da pelicula ser a mãe de Antônio Banderas. Aliás, dela vem uma das falas mais marcantes do filme. Ao descobrir que seus filhos se toraram pessoas más e sem escrupulos, afirma: "A culpa é minha. A Maldade vem das minhas entranhas". De certa forma, assume a herança genética que deixou na personalidade de seus filhos. Um deles é Antonio Banderas e o outro é o "Tigre". Ambos não foram criados por ela. O primeiro foi adotado por uma familia abastada e se tornou cirurgião, o segundo foi adotado por brasileiros e cresceu ao lado de traficantes em uma favela do Rio de Janeiro. Ambos se tornaram, ao seu modo, homens crueis. Almodovar parece querer nos dizer que o nosso carater é determinado pela nossa ascendencia e que o ambiente não é capaz de modificá-lo, pelo contrário apenas piorá-lo. Lembrro-me de uma frase de meu pai: Ao envelhcermos não melhoramos nossos defeitos, pelo contrário, acentuamos.

Em seus experimentos, o personagem de Antonio Banderas atua como um Dr Frankenstein moderno e, de certo modo, acaba sendo dominado por sua criatura também. E nesta atitude, no intuito de criar o ser com pele perfeita, Almodovar nos faz refletir sobre quem somos. Vivemos um momento de relações superficiais, em que as pessoas são julgadas pela sua parencia exterior. Em busca de aceitação, muitas pessoas lutam por um corpo perfeito e esquecem o seu interior, não trabalhando a sua alma. A última cena do filme, impactante, deixa bem claro isto, por mais que o corpo esteja modificado, a nossa essência é a mesma.

Filme espetacular, como há muito tempo não via em telas potiguares, permitindo debates por horas a fio como um bom cinéfilo gosta. Infelizmente, não poss detalhar muito o filme, pois isto prejudicaria a visão daqueles que ainda não o assistiram. Almodovar dá significado a sétima arte.