domingo, 9 de outubro de 2011

O Escrito Fantasma - Roman Polanski mostra o que aprendeu com Agatha Christie e Alfred Hitchcock

Recordo-me do primeiro livro que ganhei em minha vida, de fato, não um, mas vários livros. Foi uma coleção de diversas fábulas infantis que recebi de meus pais. Os livros chamavam-me a atenção muito mais pelo efeitos holográficos das gravuras que pelo seu conteúdo, mas ali estava o ponta-pé inicial de uma paixão. A partir daqueles livros, que minha mãe guarda até hoje em sua casa, comecei a minha relação com os papiros modernos. Entretanto, o primeiro livro que me recordo ter lido com imenso prazer foi "O caso dos dez negrinhos"de autoria de Agatha Christie. Este livro recebi de presente de aniversário de minha tia Cláudia em 1992 e ainda o guardo em minha humilde biblioteca. A história tipicamente detetivesca envolveu-me profundamente e prendeu-me da primeira a última página. Ao final, fiquei ávido por novos mistérios e passei a procurar livros da mesma autora. Tive a grata surpresa de descobrir uma imensa coleção de livros da autora, a dama do suspense inglês, na biblioteca da minha avó Tereza. Li dezenas de seus livros, e passei a considerar Hercule Poirot ou Miss Marple, suas personagens principais, meus verdadeiros amigos. Não tenho dúvido, que a leitura destes livros de mistério e investigação, acabou influenciando minha carreira profissional. Quem não se sente feliz de descobrir ou decifrar algo, tornando-o óbvio para os demais? O médico ele torna simples o que parece complicado, ao conseguir reunir vários sinais e sintomas, e com isso, definir um diagnóstico. Um bom médico é um detetive, em busca de detalhes, para encontrar o seu "suspeito": o diagnóstico do paciente. Para este profissional, assim como para o detetive, não deve ser considerado irrelevante. Nos detalhes estão as respostas para o mistério.

Este fim-de-semana, tive a grata surpresa de assistir a um belo filme do diretor Roman Polanski, chamado "O Escritor Fantasma". Fã de literatura policial, acabei me tronando fã incondicional de filmes de suspense e investigativos. Neste filme, em pleno estilo hitchcockiano, Polanski coloca um cidadão comum, um escritor em uma situação incomum, no meio de uma densa trama de mistério e crimes. O jovem escritor, interpretado pelo fenomenal Ewan McGegor, é contrato para ser o escritor fantasma da biografia de um ex-primeiro ministro inglês, interpretado pelo ator Pierce Brosnan, em excelente atuação. Ao iniciar o seu trabalho, acaba descobrindo segredos do passado do político inglês e passa a ser perseguido por deter tais informações.

É um filme simples, de poucos cenários e centrado principalmente nas interpretações excepcionais de todos os atores, incluindo a esposa do polítco Ruth, interpretada por Olivia Williams  e a secretária do mesmo interpretada por Kim Catrall, mais conhecida por suas participações na série "Sex and the City". Todos os personagens parecem esconder algum segredo, e isto cria uma atmosfera de tensão em toda a narrativa que é retratada pela personagem de Ewan McGregor. Aliás, sua interpretação cresce de maneira magistral com a narrativa. Chamou-me muito a atenção uma cena em que ao chegar a ilha onde o político mora e inciar os seus trabalhos, o escritor olha pela janela e vê um dos empregados da casa tentando juntar as folhas da entrada da casa, mas tem seu trabalho prejudicado pelo vento. O escritor se solidariza e se simpatiza com ele por parecer que ambos estão fazendo um trabalho em vão.

Na tentativa de dar maior significado ao trabalho, o escritor passa a dar menos atenção aos fatos históricos e valorizar as informações pessoais do ex-primeiro ministro. Com isto, passam a surgir problemas e seu manuscrito, a simples biografia, passa ter importância crucial na história. Aliás, fico com a impressão de que a biografia é uma personagem do filme. Polanski consegue através de sua narrativa transparecer isto. A grande personagem é a biografia, pois todas as ações giram em torno dela. Isto faz me lembrar a estrutura narrativa que Hitchcock costuma utilizar em seus filmes. Ele costumava dizer que um bom filme tem de ter um "McGuffin", o qual seria um objeto ou desfecho em que o ciclo de ações das personagens gira em torno. O exemplo clássico pode ser facilmente identificado no filme "Falcão Maltês" com Humphrey Bogart, ou na própria obra de Hitchcock, como o "Homem que sabia demais". Neste filme, James Stewart envolve-se em uma trama de assassinato internacional após receber uma informação de um moribundo nas ruas do Marrakeshe no Marracos. Não sabemos que informação é esta até o desfecho final do filme. No filme de Polanski, não sabemos por que o manuscrito é tão importante até a sequencia final, em que um pequeno detalhe (lembram-se da história dos detalhes?) nos esclarece.

O final do filme é muito revelador, mas se o espectador for atento aos detalhes, já terá descorbeto o desfecho da trama antes de chegar a sequencia final do filme. Aliás, a cena final é uma das melhores que já vi. O final ambiguo permite ao espectador construir sua sequencia final de maneira individual, em sua mente. E este é o grande papel do cinema: estimular a nossa imaginação. Um bom filme consegue ser conduzido, mesmo sem diálogos, pois a imagem é tudo. Polanski tem êxito com este filme.



O filme nos permite questionar um pouco o quanto devemos ser fiéis aos nossos ideais. O escritor foi contratado apenas para completar uma biografia, mas seria necessário ter ido tão longe em sua investigação? Será que sempre devemos ir além dos nossos limites? Até quando devemos respeitá-los? Deixo estas perguntas e mais uma: qual o nome da personagem de Ewan McGreggor no filme? 

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