sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Cartas de Iwo Jima - Lições com palavras e ações

Esta semana tive uma grata surpresa. Ao trabalhar com alguns papéis antigos, acabei encontrando uma carta de um amigo meu de infância, Paulo Marcelo. Ele escreveu esta carta logo após minha mudança da cidade de São José dos Campos para Natal. Ao reler a carta, guardei duas impressões: primeiro, de que vivi em um tempo em que para ter de contactar um amigo precisava usar papel e lápis, e ter muita criatividade na escrita; a segunda, foi a lembrança da emoção de receber um carta e vibrar com as notícias por ela transmitidas. Nesta carta específica, o meu grande amigo conta como foram seus dias de férias, e na inocência pueril, descreve com exaltação o encontro com uma lesma do mar, na gélida praia das Toninhas em Ubatuba, litoral de São Paulo. Sua descrição é tão precisa e rica em detalhes que acabei mergulhando com a minha imaginação naquele dia ensolarado de verão, como se estivesse ao seu lado. Que saudades...

Este pequeno e breve momento fez-me lembrar do belíssimo filme do grande diretor norte-americano Clint Eastwood o qual dá título a este texto. Este filme é um relato fiel de um dos momentos mais marcantes da II Guerra Mundial na região do Pacífico, um pouco esquecidos pelos livros de história. A ilha de Iwo Jima representava uma área estratégica, pois a sua conquista facilitaria a invasão norte-americana no território japonês. Entretanto, ao contrário de filmes pretéritos, este é feito sob a visão dos soldados japoneses, e não dos norte-americanos. Com isto, o estimado Clint conseguiu criar um filme em que não apenas entendemos mais um evento histórico, mas compreendemos os valores e culturas de um povo. Ao final, podemos concluir que em uma guerra não há vencedores ou derrotados, mas apenas pessoas comuns que sofrem por desejos e vontades alheias a sua realidade.

O filme é baseado em uma extensa pesquisa histórica a respeito dos acontecimentos que determinaram a derrota japonesa em uma das mais sangrentas batalhas naquela grande guerra. Muitas informações foram adquiridas a partir de cartas de soldados japoneses a seus familiares. E esta visão minimalista é que diferencia o filme de Clint de outros que retrataram o mesmo tema. Ao decorrer do filme, temos a visão de um simples soldado e do grande general Kurybaiashi, vivido pelo ator Ken Watanabe. Eles escrevem cartas de memórias ou aos seus familiares, apresentando seus questionamentos e as dúvidas mais prosaicas. Aliás, o filme começa com uma grande cena: enquanto os soldados cavam trincheiras na beira mar, à espera dos invasores norte-americanas, um deles questiona - "será que estamos cavando nossas próprias covas?". Isto já nos permite refletir sobre o significado de nossas ações diárias. Será que damos significado a tudo aquilo que realizamos? Ou estamos apenas cavando nossas próprias covas, ou seja, trabalhando em coisas sem sentido?

Ao contrário dos norte-americanos, que acreditavam em sua vitória, os japoneses não tinham dúvida alguma sobre a sua derrota. Mesmo assim, mostraram o quanto eram resistentes, transformando uma batalha que deveria durar dias em semanas. E nesse ponto, o filme ganha uma conotação interessante, pois mesmo o estudado e viajado general Kurybaiashi não questiona em nenhum momento a sua missão e não desiste até o último momento da defesa do seu povo, dos seus valores. Quantos de nós perseveramos em nossas crenças e conceitos, mesmo diante da "morte" iminente? Não coloco em pauta os aspectos de honra, mas a simplesmente a nossa palavra de compromisso. Vivemos em uma sociedade que valores individuais superam o coletivo. Aqueles soldados se sacrificaram em valor de algo muito maior que suas próprias vidas: o bem-comum.

Uma das cenas mais emocionantes do filme, ao meu ver,  foi aquela em que observamos o zeloso cuidado do Barão Nishi com o ferido soldado norte-americano. Com esta cena, acho que fica claro, o quanto que a guerra não deve ser entre homens e sim entre ideais. Portanto, não há razão para violência física.



A atmosfera de sofrimento e tristeza cresce no decorrer do filme, e se observamos com atenção, a medida que o filme avança, a película ganha um tom cada vez mais cinzento. Este cinza, sob minha visão, significa a proximidade da morte, da derrota. Este cinza carrega um ar de melancolia, o qual todos nós temos ao chegar ao final de uma jornada e não termos alcançado os objetivos traçados. Esta semana, perdemos o genial Steve Jobs e ele colocou em seu já eternizado discurso para os graduandos de Stanford, que sua principal motivação era a certeza da morte. Isto o fazia aproveitar seus dias ao máximo e tentar tornar seu dia seguinte ainda melhor, pois se quisesse alcançar os seus sonhos, o tempo não seria algo sob seu controle. Revejo a maneiro como conduzimos nossas vidas e reflito diariamente se de fato estamos fazendo o nosso melhor. Os japoneses sabiam que seu fim poderia estar no próximo tiro e jamais deixaram de se motivar em fazer algo melhor que o dia anterior.

O filme encerra com uma imagem belíssima das praias da ilha de Iwo Jima, onde ocorreram sangrentas batalhas e muitos morreram, ao som da grandiosa trilha sonora, a qual me fez lembrar o penoso toque da corneta de Montgomory Clifft no filme "A um passo da eternidade". Ele toca em homenagem ao seu amigo, assassinado por razões insginificantes. No filme de Clint, fica a impressão de que muitos morreram por razões não muito claras.

 O que alcançaremos com nossas vidas? Todos morreremos na praia em nossas frustadas tentativas de conquistar algo grandioso? ou morreremos ao lado dos nosso entes queridos com a "missão" cumprida? O final sem diálogos traduz esta sensação.


Um comentário:

  1. Olá, professor!! Parabéns pelo blog! Outro apaixonado por cinema aqui, pena que atualmente não dá pra ver muita coisa. Ganhou um leitor fiel.
    O tom cinza do filme é genial mesmo, Tom Stern é o responsável pela façanha, o mesmo diretor de fotografia de "Mystic River". eu achei bem duro o filme, quando termina a gente tá meio baqueado, é pesado, foi muito inteligente.

    Zeca

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